NA PELE – Museu da Imagem e do Som

“Na Pele”, 2012 foi uma exposição retrospectiva, nela estavam fotografias de dois projetos realizados dentro do sistema prisional de Santa Catarina: O lugar do outro ,  com fotografias realizadas no Centro Educacional São Lucas e Escreva a frase que te liberta,  com fotografias realizadas no Presídio Feminino.

“A alma, efeito e instrumento de uma anatomia política: a alma, prisão do corpo” Foucault

Ainda em 2004, na continuação do projeto, que resultou na série de fotografias intitulada O lugar do outro, iniciei um projeto de arte relacional, cuja gestação se estendeu pelo período de um ano, dentro do Presídio Feminino de Florianópolis, frequentar o ateliê de arte coordenado pela professora Liomar Arrouca, uma das poucas atividades criativas que existiam dentro daquele presídio, de estrutura bastante precária, principalmente no sentido de possibilitar uma formação profissional com vias de reintegração socioeconômica. Recordo que a única atividade que aquelas mulheres realizavam era a montagem de grampos de roupas, e as que tinham bom comportamento podiam frequentar a escola de arte. Foi lá que dei início ao projeto Escreva a frase que te liberta. Eu ainda não tinha a tatuagem como foco, o trabalho começou com um caderno em branco, no qual eu me apresentava e convidava as mulheres, que se sentissem motivadas, a escrever suas ideias sobre liberdade. Minha intenção era questionar o sentido de liberdade dentro do ambiente de reclusão.

Uma mulher, em especial, chamada Carmem, destacou-se no interesse pelo projeto e tornou-se a guardiã do caderno, que, na verdade, era como um caderno de assinaturas, daqueles que as adolescentes costumavam fazer, escrevendo depoimentos e passando para outras. Uma prática do meu tempo de adolescência, algo que se perdeu, em tempos de redes sociais. No caderno, eu convidava as mulheres a escreverem sobre seus sentimentos de liberdade. E o resultado foram depoimentos muito significativos, muito fortes. São histórias de perdas e mortes, de amores desfeitos, de desagregação familiar, de submissão e de violência conjugal, que contrastam com o desejo de retornar à vida, aos familiares, principalmente aos filhos.

Aos poucos, eu fui percebendo que as coisas importantes para as detentas estavam escritas na pele, no corpo, que, segundo Foucault (1979), é a superfície de inscrição dos acontecimentos (seja ela prisional, sexual, disciplinar, de exclusão, política, estética, científica, artística, dentre outras).  A inscrição sobre o corpo, no sentido de cravar uma conformação da sua “verdades”, um sinal, uma assinatura.

Por intermédio das tatuagens, os corpos indicavam um mundo que estava além de si, dos seus limites físicos; ele era um suporte intransponível das memórias, das crenças, da opção sexual, dos amores e dos ódios… Passei a fotografar as tatuagens, dando preferência para aquelas realizadas dentro do presídio.

Cada tatuagem remete a uma história, seja o amor declarado à família (“Meu amor por eles é fiel S, L, A”); a irreverência de quem tem pressa de viver (“Só Deus sabe a minha hora!”, e sabe que a “Vida Loka!”; das mulheres homossexuais que vivem seu amor dentro do presídio ou fora dele, mas marcam na pele sua orientação sexual (Eliane, amor verdadeiro, Amor Eterno)”.

Um dia uma mulher me perguntou: “Você quer fotografar a minha tatuagem?”. Ela mostrou a tatuagem de um cachorro bravo com um pedaço de pau na mão, e me contou: “Esse é o meu marido, ele queria que eu tatuasse seu nome no meu corpo, então eu tatuei isso, porque é isso que ele é, ele é um cachorro mau”.

Nas fotos, a identidade literal não foi revelada, porém a identidade adotada, em forma de texto gravado na própria pele, ganhou ênfase, pois a escolha do suporte corpo, revela autonomia intransponível, o próprio corpo como um “campo político”.

“A genealogia foucaultiana é disposicional e topológica, enquanto arte de ordenar os fenômenos corpóreos sob uma ótica da estratégia de forças e de saberes, ao mesmo tempo, exteriores e transversais, já que transpassam os corpos, interpenetrando-os de história”. Silveira e Furlan

Minha experiência durante aquele período de um ano, frequentando o Presídio Feminino de Florianópolis, foi um exercício de “empoderamento comunitário”, pois contei com o apoio da administradora Maria da Conceição P. Orihuela, da psicóloga Elianar Machado, da professora Liomar Arouca e das mulheres em reclusão, especialmente Carmem (Carmelita Julia).

No dia 24 de novembro de 2005, realizamos no Museu da Imagem e do Som, em Florianópolis/ SC, a exposição Escreva a frase que te liberta e um fórum intitulado Sobreliberdade, com o intuito de debater sobre a necessidade de maior investimento na profissionalização das mulheres em reclusão. No fórum foi exibido, em pré-estreia, o filme O cárcere e a rua (2004), da diretora Liliana Sulzbach, que também exibiu seu documentário no presídio feminino, junto com a exposição das fotos que, depois, foram doadas para as pessoas que tiveram suas tatuagens fotografadas.

Assim, o pensamento da arte ativista tornava-se o lugar onde eu poderia exercitar aquela indignação, que havia deixado marcas pelo depoimento de Maria. Precisava pensar em uma dramaturgia para as Marias, não mais só uma, mas todas aquelas violentadas ou agredidas, que se tornam apenas um número nas pesquisas. Ao passar do tempo, em favor da poética, fui desenvolvendo um roteiro ficcional.

 

EXPOSIÇÃO “NA PELE” MUSEU DA IMAGEM E DO SOM MIS

 

 

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